30 de maio de 2013

Montadoras Nacionais [Santa Matilde]

A série especial Montadoras Nacionais fala hoje da história do Santa Matilde, que talvez tenha sido o fora de série nacional com melhor aceitação do público. E muito disso se deve ao rigor - e carinho - com que foram produzidas suas 937 unidades comercializadas.


Em 1975, o governo brasileiro proibiu as importações de automóveis e peças, o que fez muitos proprietários de veículos importados se alarmarem e começarem a buscar uma alternativa para seus carros no mercado nacional.

Dentre estas pessoas estava o Dr. Humberto Pimentel, que possuía um Porsche Targa 911S e - já prevendo um problema futuro na reposição de peças - optou por adquirir um dos principais esportivos nacionais da época: o Puma GTB. 

Com inúmeras sugestões para modificar o modelo - todas recusadas pela fábrica - no que dizia respeito à estrutura, segurança e estabilidade, o Dr. Humberto decidiu construir ele mesmo um carro esporte que atendesse a todas as suas exigências.

Nascia assim o embrião do Santa Matilde.

Depois de alguns testes com o protótipo 001 - que foi um verdadeiro fracasso, não sendo incendiado pelo eu idealizador por muito pouco - um novo time de engenheiros ficou encarregado do projeto, que finalmente ficou pronto.

Em 1978, com linhas modernas e tendo como base a influência de diversos modelos estrangeiros, o primeiro SM era apresentado ao público no Salão do Automóvel. Dispunha de ar-condicionado, estofamento em couro, rodas de liga leve, toca-fitas, desembaçador elétrico, partes cromadas no motor, freio a disco nas 4 rodas e motorização Chevrolet 250S 4.1 de 6 cilindros - emprestado do Opala - de tração traseira. 



O sucesso foi imediato. 

Mesmo com o alto preço - que lhe rendeu a alcunha de "o mais caro carro nacional" - 88 unidades foram comercializadas, e a fila de espera só fazia aumentar. Em 1979 o carro sofreu algumas poucas alterações (passou a contar com a direção hidráulica, por exemplo), e alcançou a marca de mais 150 unidades vendidas.

Entre 1980 e 1982 a carroceria sofreu modificações que priorizavam uma maior harmonia dos componentes  e a aerodinâmica. Em 1983 nascia o coupê, com um novo desenho da parte traseira, lanternas menores, novo painel com console mais moderno, rodas aro 15, tanque de combustível de 84 litros - 30 a mais do que nos modelos anteriores - e um novo desenho da estrutura, que resultava em melhoras significativas na estabilidade e no silêncio dentro do carro.

Entre 1980 e 1983 foram vendidos 245 unidades do Santa Matilde, que agora seria disponibilizado também na versão conversível. Para isso, Dr. Humberto conseguiu uma Mercedes 450 SLC 1974, da família Abdala, para que dali fossem tiradas as idéias da capota para o novo modelo.



Lançado em 1984, o conversível saía de fábrica com duas opções de capota: a de verão em lona, guardada em um compartimento atrás dos assentos traseiros e a de inverno, feita em fibra de vidro, com janelas em vidro. Ao contrário dos carros esporte conversíveis da época, o SM conversível contava com uma ótima estrutura que não "torcia".


Entre opções coupê e conversível foram comercializados 62 modelos da safra de 1984 e 81 unidades da safra 1985.

Em 1986 a Santa Matilde atingiu o seu ápice. Com quase 10 anos produzindo carros com um altíssimo padrão de qualidade, havia se tornado referência na indústria automobilística nacional. Só neste ano, 207 unidades foram comercializadas, e pouco mais de 50 unidades deste total eram do modelo conversível.

Entre 1986 e 1987 o Santa Matilde sofreu uma das suas últimas modificações estéticas, que substituiu os icônicos quatro faróis redondos por um par de faróis retangulares - emprestados do VW Santana - e seu design externo foi atualizado com novos ângulos e um novo desenho.

Ainda em 1986, foi iniciado o projeto de um modelo  executivo, de 4 portas, destinado a atender ao mercado dos carros de luxo, com grandes chances de se tornar o modelo padrão dos carros oficiais do governo. Paralelamente, trabalhava-se também na remodelação - a primeira - do modelo conversível, que ganharia para-choques integrados à carroceria. 

No início de 1988, problemas com o sindicato dos metalúrgicos - do setor ferroviário da companhia - interromperam a produção do veículo e, com o comando da fábrica exercido por membros do sindicato dos trabalhadores, fôrmas, planilhas, documentos relativos à história do carro, dentre outras coisas foram sumariamente destruídos.

Mesmo assim, alguns poucos funcionários continuaram trabalhando e produzindo os carros em menor escala, apostando em uma recuperação da fábrica. As mudanças no modelo conversível e o protótipo do Sedan Executivo entretanto foram abandonados por falta de mão de obra e investimentos, e ao final deste ano apenas 6 modelos foram entregues (sendo um deles conversível).

A Santa Matilde seguiu produzindo poucos modelos de 1989 até 1995, e um único modelo - com mecânica de Ômega 3.0 e 6 cilindros - foi entregue em 1997. Encerrava-se assim a história de um dos fora de série brasileiros de maior sucesso, com 490 SM's fabricados do modelo hatch, 371 SM's do modelo coupê e 76 S'Ms conversíveis, num total de 937 SM's fabricados.

A empresa - ao contrário da grande maioria - segue na ativa até hoje, voltada exclusivamente para o mercado ferroviário, mas eventualmente produz algumas poucas peças de reposição para os modelos já existentes.

A LENDA DO ESTILETE

Uma curiosidade: o Dr. Humberto era tão rigoroso com a qualidade no acabamento de cada modelo, que ficou famoso por carregar em seu bolso um estilete. E, quando uma pintura não estava de acordo com os padrões que ele exigia, o carro era simplesmente riscado, para que a pintura fosse refeita. A mesma regra valia para o estofamento.



FONTES

Para a elaboração desta postagem foram utilizadas algumas fotos e trechos retirados do site santamatilde.com.br, além de uma foto do modelo pertencente ao Paulo Lanfredi, amigo piloto e proprietário de um SM conversível no Rio de Janeiro.

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