18 de junho de 2013

O dia seguinte

(Me crucifiquem, então) Estive ontem nas ruas do centro do Rio acompanhando a manifestação. Ou, junto ao protesto... Coloquem como quiserem. Eu prefiro chamar o que vi ontem de aglomeração de pessoas, somente. E vou explicar isso mais pra frente.

Cheguei no Largo da Carioca por volta de 19h. Duas horas após o início do ato, portanto. E num primeiro momento me assustei com a impressionante quantidade de gente ocupando a Avenida Rio Branco. Muita gente mesmo! Não demorou para ver no meio da multidão um carro de som - desses trios elétricos usados no carnaval mesmo - onde, ao invés de argumentos, se ouvia um simples "esse é o dia mais feliz da minha vida! Eu não sou de nenhum partido, e só queria dizer: Vai tomar no cu Dilma! Vai tomar no cu Cabral! Vai tomar no cu, Paes"... E só!

E aí entra o porque de eu chamar de uma simples aglomeração de pessoas. 

Não sei se por conta do horário em que eu cheguei, mas, senti falta de um direcionamento, uma liderança - e não, essa não precisa ser partidária, e nem poderia ser, aliás - argumentos concretos e acusações sólidas. Não havia nada disso! Havia só muita gente nas ruas - como nunca se viu, ou como eu nunca vi, ao menos - cartazes de protesto, gente puta da vida com um monte de coisas e nada era falado. Nenhum pensamento, nenhuma acusação era difundida entre os que estavam presentes.

Tenho certeza de que alguns dos que vi, se fossem abordados com a pergunta do porque de estarem ali, só conseguiriam falar do aumento da passagem de ônibus e de umas duas ou três coisas antes de começar a xingar todo mundo. 

Tudo bem! O prefeito, o governador e a presidente são só alguns nomes de uma enorme lista de filhos da puta ao qual queremos xingar de filhos da puta todos os dias. Mas, por quê? Você sabe o porque! Eu sei o porque também. Mas sinto que faltou "um grande porque" no protesto de ontem.

Um norte. Uma objetividade.

E logo quando se juntou mais gente nas ruas, logo quando a polícia não baixou a porrada em todo mundo, logo quando a mídia em geral resolveu - e não tinha nem como ser diferente, também - noticiar tudo de uma maneira mais ampla, logo quando tínhamos o ambiente propício para vomitar tudo aquilo que está preso na garganta de cada um, a voz mais ouvida bradava simplesmente "Vai tomar no cu Dilma! Vai tomar no cu Cabral! Vai tomar no cu, Paes".

Porra!

Qual o sentido de se pichar a ALERJ? Ou, qualquer outro prédio? O que se ganha apedrejando o que quer que seja? Qual a imagem que passam ao atear fogo em um carro bem no olho do furacão? E não adianta vir com o papo de que "isso representa o povo contra o Estado e que blá blá blá...". Vão todos tomar no cu, esses. 

A tomada do Congresso pela multidão sim, foi emblemática. Mas, e a voz dessa multidão toda? Qual foi? Se teve uma, eu juro que não ouvi.

Antes que venham dizer, até entendo que o motivo de não se ter uma liderança definida seja uma questão de segurança. Queria acreditar que o motivo real é esse. Porque, claro, uma pessoa ou uma entidade à frente dessa merda gigantesca seria facilmente calada e/ou perseguida.

Mas os argumentos têm de ir além dos cartazes, têm de ir além do facebook.

Caso contrário, de nada vai adiantar sairmos para as ruas aos milhares e gritar coisas do tipo "Vai tomar no cu Dilma! Vai tomar no cu Cabral! Vai tomar no cu, Paes". Isso não vai nunca resolver os nossos problemas, que não são poucos.

Quero deixar bem claro que não sou contra o movimento. Eu estava lá, inclusive.

Mas estava lá porque a concessão do transporte público da minha cidade me obriga a andar de carro todos os dias em troca de um pouco de conforto, e com isso, acabo sofrendo com um trânsito caótico. Estava lá porque sofro com os transtornos causados pelas obras superfaturadas. Estava lá porque a prefeitura fez questão de destruir o único espaço onde eu podia praticar o meu esporte. Estava lá porque sofro com a polícia corrupta que tenta me extorquir a cada blitz que passo. Estava lá porque sofro com a especulação imobiliária que coloca o preço do meu aluguel nas alturas, e ao mesmo tempo acaba deixando a casa própria um sonho cada vez mais distante...

Enfim, eu estava lá por uma porrada de coisas. Como você, que estava lá também. Ou como você, que apenas viu pela tevê e deve ter sua listinha pessoal de reclamações e argumentos.

Eu não estava lá para xingar o prefeito, o governador e a presidente. Isso eu já faço todos os dias!

2 comentários:

  1. Jaime, concordo com praticamente tudo!! Disse o que muitos queriam dizer e não sabiam! Texto excelente!

    ResponderExcluir
  2. Fantástico! Perdi um pouco a "empolgação" por conta desses relatos... Infelizmente em algumas cidades a coisa tá assim, desordenada. Aqui onde moro ocorrerá uma manifestação na quinta, mas um partido político meio que já "tomou pra si" a ideia e eu já sinto uma pontinha de decepção e desânimo. É isso...

    ResponderExcluir