29 de abril de 2014

20 anos sem Senna, por Paulo Alexandre Teixeira



O amigo Paulo Alexandre Teixeira recebeu com muito carinho o convite para participar do especial.

E isso me alegrou muito.

O cara é um amigão!

E o seu blog, o Continental Circus, é visita obrigatória para quem curte automobilismo.

Clica aqui.

Atualmente, acompanho embasbacado a série "Os Pioneiros", que já está no 12º capítulo.

Um trabalho sem precedentes, que conta a história dos primórdios do automobilismo.

Uma coisa fantástica!

Não é pra menos...

... O blog do cara já virou até livro!

Enfim.

Hoje quem fala sobre Ayrton Senna é o Speeder76.



A minha visão de Ayrton Senna

Por Paulo Alexandre Teixeira

Os mais de sete anos que levo a escrever no meu blog deram tempo mais do que suficiente para escrever sobre Ayrton Senna. As minhas admirações e desabafos sobre ele demonstram, não tanto coisas sobre ele em si, mas o impacto que ele teve na sociedade e numa geração de pessoas, que cresceram a vê-lo correr domingo sim, domingo não, e onde aparecia no lugar mais alto do pódio ou no primeiro lugar da grelha de partida.

Quando Senna apareceu, já via a Formula 1 na televisão, mas nunca tinha ninguém para seguir. Via as coisas porque via os outros a ver, naquela minha infância, nos inícios dos anos 80. Lembro-me de ter visto o acidente fatal do Gilles Villeneuve e os noticiários sobre isso, e lembro-me também da minha mãe a falar sobre um “Pato”. Anos depois, entendi o que ela queria falar: era do José Carlos Pace.

Mas o engraçado é que não fiquei imediatamente fã do Senna. Alias, duvido que a maioria tenha ficado fã dele quando começou a correr na Toleman, no Brasil, ou quando ele fez a sua primeira demonstração de habilidade ao volante, naquele chuvoso – e prematuramente curto – GP do Mônaco de 1984. Devem ter ficado fã ao mesmo tempo que eu: naquele chuvoso GP de Portugal de 1985, o dia de Tiradentes e o dia em que Tancredo Neves morreu.




Posso testemunhar que foi um domingo chuvoso e frio. Vi a corrida na televisão, entre o espantado e o maravilhado, vendo um carro preto a ir bem no meio daquela chuva, daquela carga de água, passando imune às armadilhas ao qual os outros caíram. E no final, a receber a bandeira de xadrez, perante a euforia da multidão, e das pessoas que o acompanhavam, continuei espantado por ver aquilo tudo. E depois, o meu avô, que assistiu a tudo como eu, e ficou espantado como eu, disse a frase que me deu aquele “click”: “Tu tens que o apoiar. Ele é o teu patrício”.

Ele tinha razão, mas não tanto por causa de ele e eu termos nascido no mesmo país, com 16 anos de diferença: era por causa daquilo que ele fazia em pista, ao qual vi ao longo dos anos a seguir.

No domingo de Páscoa de 1993, estava de novo à frente da televisão, num dia de chuva como aquele que tinha vivido oito anos antes, e com a família em casa. Havia uma diferença: o meu avô já não existia mais. Tinha ido embora de vez no inicio de fevereiro daquele ano, antes de começar a temporada. Aquela era a terceira corrida da temporada, e havia um empate a uma vitória entre Ayrton Senna e Alain Prost. Como no ano anterior, todos pensavam que iria ser um passeio de mais um Williams, mas em Interlagos, ele aproveitou o facto de ser um bom piloto na chuva para vencer pela segunda vez na pista brasileira.

Sentado no sofá, vi a partida. E comecei a ver a confusão dos primeiros metros, o acidente entre o Michael Andretti e o Karl Wendlinger, mas depois reparei no Senna passar o Damon Hill e logo a seguir, Alain Prost. Minutos depois, vejo a repetição e reparei que, do quarto posto, perdeu um lugar nos metros iniciais, para de seguida reagir passando o Benetton de Michael Schumacher, o Sauber de Karl Wendlinger, e os dois Williams de Hill e Prost. Limitei-me a sorrir, lembrando que “o avô deveria ter visto isto. Teria adorado.”




Lembro-me bem que foi uma grande corrida, ainda mais com o desempenho do Rubens Barrichello, no seu modesto Jordan, e a famosa volta mais rápida do Senna, com uma passagem pelas boxes. É daquelas coisas que não se esquece, e no meu caso particular, ainda com a lembrança do meu avô ainda presente.

Acho espantoso como tanto tempo depois, ainda tenhamos uma geração a falar dele de uma maneira quase deificada. Como uma geração de pilotos foi totalmente influenciada por aquilo que fazia na pista. Como a agressividade que vemos hoje é devido à postura dele na pista, mais de vinte anos antes. Lembro-me particularmente de um acidente bem feio na GP3, no Mónaco, em 2012. O carro do Conor Daly, o filho de Derek Daly, voou para as redes de proteção, que desfizeram o seu carro, depois de uma colisão com o russo Dimitry Suranovich. Horas depois, no seu Twitter, Suranovich justificou-se com a famosa frase que Senna disse na conferência de imprensa do GP da Austrália de 1990, quando se justificou perante Jackie Stewart: “Se não procurares por uma abertura, não és piloto”.

Entendo a evocação de Senna, e entendo o culto, ainda mais por uma razão do qual poucos falam, mas todos têm presentes: vimo-lo a morrer, em direto e ao vivo. E num mundo hipermediatizador como o nosso, com a Internet na sua infância e as redes sociais ainda estavam no campo da ficção cientifica, teve um impacto em toda uma geração. E num Brasil que necessitava de heróis para mostrar que ser brasileiro não era uma maldição – no meio da hiperinflação, dos heróis caídos, de um país eram mais os que deixavam do que os que regressavam – ele era o tal motivo para cantarem que tinham muito orgulho, muito amor. Irónicamente, mês e meio depois de ele morrer, o Brasil inteiro gritava que era tetra.

Contudo, confesso que por vezes não suporto as “viúvas”. Temo que esqueçam que a vida segue adiante, e por vezes acho que fazem mais mal do que bem. Ele não era infalível, e a melhor prova foi o que aconteceu em Imola. É bom lembrar os bons momentos, mas endeusá-lo ou usá-lo para falar mal dos outros acabar por criar anticorpos contra ele, do qual não tem culpa. É um pouco como as figuras religiosas: muitos mataram por eles, mesmo não tendo sido autorizados a fazer tal pecado.

Em suma, é uma velha frase que costumo dizer: escrevo sobre o passado, mas não vivo nele. Há um mundo lá fora e a vida continuou sem ele. Mas por vezes, dou por mim a pensar sobre ele, especialmente quando envolve a figura do meu avô. E confesso ter saudades dos dois.

2 comentários:

  1. Que texto! Grande Speeder! Quanto ao final sobre o mal que as "viúvas" fazem à memória do Ayrton, assino em baixo. Perfeito!

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  2. Sou suspeito para falar de algo feito pelo Paulo, sou fã dele desde que começamos em longínquos sete anos atrás.

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