O amigo Paulo Alexandre Teixeira recebeu com muito carinho o convite para participar do especial.
E isso me alegrou muito.
O cara é um amigão!
E o seu blog, o Continental Circus, é visita obrigatória para quem curte automobilismo.
Clica aqui.
Atualmente, acompanho embasbacado a série "Os Pioneiros", que já está no 12º capítulo.
Um trabalho sem precedentes, que conta a história dos primórdios do automobilismo.
Uma coisa fantástica!
Não é pra menos...
... O blog do cara já virou até livro!
Enfim.
Hoje quem fala sobre Ayrton Senna é o Speeder76.
A minha visão de Ayrton Senna
Por Paulo Alexandre Teixeira
Os mais de sete
anos que levo a escrever no meu blog deram tempo mais do que suficiente para
escrever sobre Ayrton Senna. As minhas admirações e desabafos sobre ele
demonstram, não tanto coisas sobre ele em si, mas o impacto que ele teve na
sociedade e numa geração de pessoas, que cresceram a vê-lo correr domingo sim,
domingo não, e onde aparecia no lugar mais alto do pódio ou no primeiro lugar
da grelha de partida.
Quando Senna
apareceu, já via a Formula 1 na televisão, mas nunca tinha ninguém para seguir.
Via as coisas porque via os outros a ver, naquela minha infância, nos inícios
dos anos 80. Lembro-me de ter visto o acidente fatal do Gilles Villeneuve e os
noticiários sobre isso, e lembro-me também da minha mãe a falar sobre um
“Pato”. Anos depois, entendi o que ela queria falar: era do José Carlos Pace.
Mas o engraçado é
que não fiquei imediatamente fã do Senna. Alias, duvido que a maioria tenha
ficado fã dele quando começou a correr na Toleman, no Brasil, ou quando ele fez
a sua primeira demonstração de habilidade ao volante, naquele chuvoso – e
prematuramente curto – GP do Mônaco de 1984. Devem ter ficado fã ao mesmo tempo
que eu: naquele chuvoso GP de Portugal de 1985, o dia de Tiradentes e o dia em
que Tancredo Neves morreu.
Posso testemunhar
que foi um domingo chuvoso e frio. Vi a corrida na televisão, entre o espantado
e o maravilhado, vendo um carro preto a ir bem no meio daquela chuva, daquela
carga de água, passando imune às armadilhas ao qual os outros caíram. E no
final, a receber a bandeira de xadrez, perante a euforia da multidão, e das
pessoas que o acompanhavam, continuei espantado por ver aquilo tudo. E depois,
o meu avô, que assistiu a tudo como eu, e ficou espantado como eu, disse a
frase que me deu aquele “click”: “Tu tens que o apoiar. Ele é o teu patrício”.
Ele tinha razão,
mas não tanto por causa de ele e eu termos nascido no mesmo país, com 16 anos
de diferença: era por causa daquilo que ele fazia em pista, ao qual vi ao longo
dos anos a seguir.
No domingo de
Páscoa de 1993, estava de novo à frente da televisão, num dia de chuva como
aquele que tinha vivido oito anos antes, e com a família em casa. Havia uma
diferença: o meu avô já não existia mais. Tinha ido embora de vez no inicio de
fevereiro daquele ano, antes de começar a temporada. Aquela era a terceira
corrida da temporada, e havia um empate a uma vitória entre Ayrton Senna e
Alain Prost. Como no ano anterior, todos pensavam que iria ser um passeio de
mais um Williams, mas em Interlagos, ele aproveitou o facto de ser um bom
piloto na chuva para vencer pela segunda vez na pista brasileira.
Sentado no sofá, vi
a partida. E comecei a ver a confusão dos primeiros metros, o acidente entre o
Michael Andretti e o Karl Wendlinger, mas depois reparei no Senna passar o
Damon Hill e logo a seguir, Alain Prost. Minutos depois, vejo a repetição e
reparei que, do quarto posto, perdeu um lugar nos metros iniciais, para de
seguida reagir passando o Benetton de Michael Schumacher, o Sauber de Karl
Wendlinger, e os dois Williams de Hill e Prost. Limitei-me a sorrir, lembrando
que “o avô deveria ter visto isto. Teria adorado.”
Lembro-me bem que
foi uma grande corrida, ainda mais com o desempenho do Rubens Barrichello, no
seu modesto Jordan, e a famosa volta mais rápida do Senna, com uma passagem
pelas boxes. É daquelas coisas que não se esquece, e no meu caso particular,
ainda com a lembrança do meu avô ainda presente.
Acho espantoso como
tanto tempo depois, ainda tenhamos uma geração a falar dele de uma maneira
quase deificada. Como uma geração de pilotos foi totalmente influenciada por
aquilo que fazia na pista. Como a agressividade que vemos hoje é devido à
postura dele na pista, mais de vinte anos antes. Lembro-me particularmente de
um acidente bem feio na GP3, no Mónaco, em 2012. O carro do Conor Daly, o filho
de Derek Daly, voou para as redes de proteção, que desfizeram o seu carro,
depois de uma colisão com o russo Dimitry Suranovich. Horas depois, no seu
Twitter, Suranovich justificou-se com a famosa frase que Senna disse na
conferência de imprensa do GP da Austrália de 1990, quando se justificou
perante Jackie Stewart: “Se não procurares por uma abertura, não és
piloto”.
Entendo a evocação
de Senna, e entendo o culto, ainda mais por uma razão do qual poucos falam, mas
todos têm presentes: vimo-lo a morrer, em direto e ao vivo. E num mundo
hipermediatizador como o nosso, com a Internet na sua infância e as redes
sociais ainda estavam no campo da ficção cientifica, teve um impacto em toda
uma geração. E num Brasil que necessitava de heróis para mostrar que ser
brasileiro não era uma maldição – no meio da hiperinflação, dos heróis caídos, de
um país eram mais os que deixavam do que os que regressavam – ele era o tal
motivo para cantarem que tinham muito orgulho, muito amor. Irónicamente, mês e
meio depois de ele morrer, o Brasil inteiro gritava que era tetra.
Contudo, confesso
que por vezes não suporto as “viúvas”. Temo que esqueçam que a vida segue
adiante, e por vezes acho que fazem mais mal do que bem. Ele não era infalível,
e a melhor prova foi o que aconteceu em Imola. É bom lembrar os bons momentos,
mas endeusá-lo ou usá-lo para falar mal dos outros acabar por criar anticorpos
contra ele, do qual não tem culpa. É um pouco como as figuras religiosas: muitos
mataram por eles, mesmo não tendo sido autorizados a fazer tal pecado.
Em suma, é uma
velha frase que costumo dizer: escrevo sobre o passado, mas não vivo nele. Há
um mundo lá fora e a vida continuou sem ele. Mas por vezes, dou por mim a
pensar sobre ele, especialmente quando envolve a figura do meu avô. E confesso
ter saudades dos dois.




Que texto! Grande Speeder! Quanto ao final sobre o mal que as "viúvas" fazem à memória do Ayrton, assino em baixo. Perfeito!
ResponderExcluirSou suspeito para falar de algo feito pelo Paulo, sou fã dele desde que começamos em longínquos sete anos atrás.
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