28 de abril de 2014

20 anos sem Senna, por Rafael Schelb

Como prometido, hoje começa o especial 20 anos sem Senna aqui no blog.

Serão 4 textos de convidados. Um por dia.

Amigos do blog, que também possuem seus espaços na web.

Não impus nenhuma restrição aos convidados. A única premissa era falar sobre... Ayrton Senna, claro. Podia ser qualquer coisa. Uma corrida, uma lembrança, uma crítica, crônica...

E, confesso, gostei do que vi.

O Rafael Schelb inaugura o espaço.

Seu blog fala de Fórmula 1 também. "A Fórmula 1 do meu jeito", ele costuma dizer.

Além de ter um bom espaço para o bom e velho Rock n' Roll...

Clica aqui.

Bom, vamos lá...





Senna

Por Rafael Schelb

1994 foi um ano que começou com um sentimento um pouco diferente aqui no Brasil. Depois de 21 anos de ditadura militar, e 8 de governos civis ineficientes e corruptos, o país parecia caminhar a passos largos para um novo tempo de estabilidade, prosperidade e desenvolvimento. O Plano Real prometia controlar a maldita Inflação. Escândalos de corrupção eram denunciados, julgados e punidos (como, por exemplo, o impeachment do ex-presidente Collor). Novidades tecnológicas, como o telefone celular e a internet, começavam a surgir, e até mesmo uma novela, cuja história se baseava totalmente em encontros virtuais, foi exibida nessa época...  

Eu, então um moleque de 10 anos, achava aquilo tudo o máximo!

Não só na política, nas novelas, no clima ou na tecnologia o clima era de euforia. No futebol, mesmo com todas as críticas ao trabalho de Parreira, parecia que o tetra finalmente viria. E, claro, Ayrton Senna na Williams não tinha como dar errado...

Mas deu.

Não vou me ater nesse texto aos precedentes. Não vou falar do quanto o carro da Williams era difícil de lidar, das dificuldades de Ayrton em domar aquela “cadeira elétrica”, como muitos chamaram - até injustamente - o FW16. Não vou perder tempo falando sobre o erro em Interlagos, cometido no desespero em ver o alemão passear no seu quintal, diante da sua torcida. Nem do azar em Aida. Nem do acidente em si, em Ímola...



Vou falar de mim. Porque mesmo 20 anos depois, ainda lembro muito bem daquele dia.

Naquele 1994 de tantas novidades, alguns anacronismos ainda estavam presentes no dia-a-dia de muitas famílias. Principalmente as do interior, como a minha. Naquela época, o mais comum é que as TVs ainda usassem conversores UHF, já que a maioria das casas ainda tinha aparelhos fabricados no fim dos anos 70 ou começo dos anos 80. Como era o nosso caso.

Enfim, o nosso conversor havia quebrado alguns dias depois do GP do Pacífico, e por algum motivo que eu não me lembro (talvez displicência ou mesmo falta de grana), meu pai não comprou um novo a tempo para o GP de San Marino. Logo, não estávamos vendo a corrida. 

Na verdade, eu não estava. 

Ele sempre acordava cedo aos domingos para ir à feira, e na volta, passava na casa da minha tia, que morava de frente para nossa casa. Na verdade a gente vivia por lá. Eu nunca gostei de acordar cedo (até hoje tenho dificuldade pra isso), e justo nesse dia meu pai esqueceu-se de me chamar e ficou na minha tia. Logo, não vi o acidente, e fiquei sabendo de tudo por ele, depois.

Na hora, ninguém achou que fosse algo realmente sério. Ninguém sequer pensou na possibilidade de morte. Na verdade, nem imaginávamos que ele estivesse gravemente ferido. Mas depois do almoço, quando já circulavam boatos de que a coisa era feia, fomos para a casa da minha tia para acompanhar tudo, e lá vimos o comunicado do Roberto Cabrini...

Sinceramente, não posso dizer que fiquei triste.

Eu gostava do Senna. Assistia às corridas por causa dele. Afinal, era o grande ídolo da época, estava no auge da carreira, havia feito uma temporada brilhante no ano anterior, mesmo sem um carro à altura das Williams... Mas era, para mim, uma pessoa distante. 

(Eu até entendo que as pessoas se sintam conectadas aos seus ídolos, e entendam que, de alguma forma, eles fazem parte do seu dia-a-dia. Mas comigo não funcionava – e não funciona - assim. O sentimento de foi de choque, claro, por ver morrer um ídolo. Mas não consegui fazer parte de toda aquela comoção nacional, mesmo estando chateado com o fato)

Muita gente diz que a partir daquele 1º de Maio a Fórmula 1 perdeu a graça. Muitos deixaram de acompanhar a categoria. Mesmo com a pouca noção de realidade que os 10 anos de idade me proporcionavam, sempre achei esse pensamento um tanto quanto bobo. 

Tanto que, 15 dias depois, lá estava eu de novo em frente à TV, assistindo ao GP de Mônaco. Aquele mesmo GP que Ayrton venceu por seis vezes. Aquele em que o 1º lugar foi deixado vazio em sua homenagem...

Na minha cabeça, aquela era a melhor forma de honrar a memória de Ayrton, e manter vivo seu legado. Afinal, se o grande campeão nunca fugiu da luta, por que eu deveria fugir?

Desde aquele 1º de Maio de 1994 nunca mais eu deixei de acompanhar a Fórmula 1, mesmo com a dificuldade de acordar cedo. 20 anos depois, acho que essa foi a melhor forma de mostrar ao Ayrton o quanto ele foi importante na escolha do meu esporte preferido.



E quanto a 1994 e toda aquela euforia?

Bem, a internet os celulares estão aí, conectados com o mundo em questão de segundos. A seleção de futebol foi tetra, e dedicou a conquista ao Ayrton. Quanto à sensação de que nosso país finalmente iria para frente... 

Bom, é melhor ficar por aqui...

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