30 de abril de 2014

20 anos sem Senna, por Ron Groo



O blig do Groo é um dos espaços sobre F1 mais originais da internet.

Clica aqui pra conhecer.

Todo dia tem coisa nova por lá.

Suas crônicas são impagáveis. E, claro, inteligentíssimas...

E ainda tem as montagens.

Sou fã do cara, confesso.

Por isso, ele não poderia ficar de fora do especial.

Foi quase uma imposição.

Com a palavra, Ron Groo.



Futuro do passado

por Ron Groo

Naquele dia 10 de Outubro de 2006, Senna acordou mais cedo do que costumava acordar aos domingos. Afinal era dia de GP Brasil de F1, e mesmo aposentado desde 1995 - desiludido com a fragilidade dos carros Williams - resolveu que era hora de parar.  

Havia perdido dois campeonatos, 1994 e 1995, para um alemão até então desconhecido, que pilotava um carro com nome de grife de roupas, mas que se revelara um excepcional piloto, tendo ganho o mundial sete vezes (cinco seguidas).

Enfim, ele já se sentia deslocado no circo.

Os rivais já não eram tão desafiantes. Já não havia mais Prost, Mansell... E pior: Piquet já havia parado. O que impossibilitava Senna de dar o troco daquela ultrapassagem que tomara na Hungria, em 86.

Em suma já não tinha tanta graça.

Mas acompanhava a F1 de casa, em Tatuí, onde ficava a sede de suas auto-escola que se espalhava em filiais e franquias por quase todo o estado de São Paulo.

Dos antigos amigos, mantinha contato com Berger, Barrichello, atendia sempre que podia ao Reginaldo Leme e até quando não podia ao Luiz Fernando Ramos, o Ico. Respondia aos e-mails de Eduardo Correa e vez por outra mandava suas colaborações ao site GPtotal.



Só guiar é que não fazia mais.

Escapara ileso do acidente na Tamburello em 94 e continuou o campeonato com garra e coragem. Ouviu de Prost um sincero: “- Se fosse comigo eu parava no dia seguinte e nunca mais entrava num carro na minha vida...”.

E de Piquet um irônico: “-P... tinha de ser na mesma curva que eu?”.

Naquela manha sentou-se em frente ao enorme aparelho de TV de sua sala de estar, cercou-se de muitos quilos de salgadinhos - batatas fritas e outros venenos comestíveis - um punhado de latas de cerveja (afinal ele também era filho de Deus. Mas não da maneira como queriam crer alguns fãs) e gritou para sua esposa que estava por perto: “- Benhê, não me incomoda agora não que vai começar a transmissão da corrida!”.

E ela respondeu meio que alienadamente: “- Mas de novo Ayrton?! Você vê corrida todos os fins de semana... É Formula 1, A1GP, Formula Indy; Formula Mundial, Kart e até o Super-Classicos você assiste... Assim não agüento!”.

“- Mas amor, a velocidade está no sangue...”.

“- Ayrton... os Super-Classicos nem correm muito!”.

“- Benzinho... Mas tem uns carrinhos lindos, e até alguns bons pilotos...”.

“- Desisto! Fica aí com este ronco de motor na orelha, fica...”.

E ele assiste tudo...

Os treinos livres da manhã, o Warm Up, os especiais antes da prova, e finalmente, a largada.

Naquele domingo, viu Felipe Massa disparar na frente tomar a ponta e não mais perder até a bandeirada final, como ele mesmo cansou de fazer quando corria pelo mundo afora.

A briga era entre ‘O’ alemão e um espanhol (então atual campeão mundial que lutava pelo bi).

O alemão vencera em Monza e lá mesmo anunciara sua aposentadoria, e agora precisava vencer o GP Brasil e torcer para que o espanhol não pontuasse...

O carro do espanhol era um foguete, mas o alemão era ‘O’ alemão.

Então...

Largou em décimo. Em poucas voltas já era o quinto. Furou um pneu quando ultrapassou o italiano (companheiro de equipe do espanhol). Caiu pra ultimo... Veio se recuperando, passando um por um.

(Senna não piscava)

Passou por Barrichello...

(Senna não mais mastigava)

Mais uma ultrapassagem.

(Senna dava outro gole na cerveja de olhos arregalados)

No fim da reta de largada, na entrada do ‘S’ que leva o nome do brasileiro, o alemão encosta no muro, se espreme todo e dá um come n’um finlandês que faz Senna jogar salgadinhos e cerveja para o alto e gritar. “- É gênio! Troca o nome deste ‘S’ pra “S de Schumacher!”.



Quando acabou corrida e o hino nacional foi ouvido, o alemão não estava no pódio. E nem precisava estar. Chegou em quarto lugar, ofuscando o titulo do espanhol.

No sofá, emocionado ainda, ouviu o alemão dizer que estava feliz por ter sido Felipe Massa o primeiro brasileiro a vencer no Brasil depois de Senna. Então Senna ergueu sua lata de cerveja em tom solene e saudou o alemão:

“- Este é do c...”.

Um comentário:

  1. Adoro essas histórias de "universos paralelos". E isso o Groo faz magnificamente. Puta texto!

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