1 de julho de 2015

Entrevista com Taki Inoue

Há algum tempo atrás, quando iniciei o projeto do findado Motordrome - um portal com notícias sobre automobilismo nos moldes do Grande Prêmio idealizado por mim, o Lucas Carioli e o Paulo Alexandre Teixeira, pensamos em entrevistar alguém ligado à F1 logo de cara, para atrair público. Mas havia um porém: quem seria acessível ao ponto de conceder uma entrevista a três caras iniciando um projeto no Brasil? E aí entrou Taki Inoue, que é um dos caras mais ativos no Twitter e no Facebook...

Eu mesmo me encarreguei de entrar em contato com ele, explicar a idéia e perguntar se ele toparia. Ele atendeu, de primeira. Tratamos de separar algumas perguntas, consolidar as melhores e enviar. O resultado está aí embaixo. Curtam aí!

[...]

 “Não há ninguém como eu no grid atual, e é por isso que a F1 está tão chata” (INOUE, Taki)




Nascido em 5 de Setembro de 1963 em Kobe, no Japão, Takachiho "Taki" Inoue estreou na Fórmula 1 no Grande Prêmio do Japão do fatídico ano de 1994. E mais: pela mesma Simtek que vitimou o austríaco Roland Ratzenberger naquele ano. Quando perguntamos se ele sentiu medo disso em algum momento ele prontamente respondeu: "medo? Não. Eu sabia que minha velocidade era bastante segura".

Taki foi bastante simpático e receptivo desde o primeiro contato, e eu só tenho a agradecer pela oportunidade de conhecer um pouco mais sobre sua breve passagem pela Fórmula 1. Muitas das respostas não foram tão extensas como eu esperava, mas não deixa de ser um pedacinho da história. Espero que gostem!

Jaime Boueri: Conte como anda a sua vida. Você vive em Mônaco, mas, o que mais?
Taki Inoue: Bem, o estilo de vida em Mônaco é muito chato e não há nada de especial na minha vida. Talvez a maior mudança tenha sido o clima no sul da França, que é bem diferente de quando eu comecei a viver aqui, há 20 anos. A velocidade da internet é muito lenta se comparada com outros países civilizados, mas estou gostando muito de Twitter e Facebook na minha vida.

JB: Acho incrível o fato de você nunca ter vencido uma corrida, nem conseguido um único pódio. Nem mesmo na Fórmula 3. Isso não é estranho?
TI: Verdade! Eu nunca experimentei a sensação de vencer ou de subir no pódio na minha carreira. Mas, estranho? Por que? Há tantos pilotos na Fórmula 1 que também não conseguem um pódio. Muitos inclusive sequer marcam pontos.

JB: A Fórmula 1 é um sonho para qualquer piloto, e o fato de chegar lá já pode ser considerado uma vitória. Mas, quando e como você foi fisgado pelo 'vírus da velocidade'? Quem eram suas referências? Sua família te apoiou?
TI: Não faço idéia. Mas eu não recebi qualquer apoio da minha família para financiar minhas corridas.

JB: Você começou diretamente em Touring Cars no Japão, para os monopostos na Inglaterra. Você acha que houve algum erro de planejamento? Como, por exemplo, ter ignorado os karts?
TI: Por que você não pergunta a mesma coisa para o Jacques Villeneuve ou o Damon Hill? Eles também não passaram pelos karts.

JB: Como foi seu primeiro dia na Inglaterra? Lemos que teve dificuldades com o idioma. Fale um pouco sobre isso.
TI: A minha primeira visita ao Reino Unido é uma bela lembrança para mim. Mas eu falava zero de inglês e conhecia zero de corridas europeias. Além disso, eu não tinha visto a F1 ainda.

JB: Qual foi o sentimento de estrear em uma temporada tão marcante, por conta da morte de Senna e Ratzenberger (este último, inclusive, na mesma equipe em que você correu)? Você não teve medo?
TI: Eu sabia que a minha velocidade era segura. Então, eu não tive medo algum de pilotar aquele carro.

Taki Inoue e a [linda] Simtek durante os treinos livres para o GP do Japão de 1994.


JB: O que você lembra daquele chuvoso GP do Japão de 1994? E do Simtek S941? Quais são suas maiores lembranças daqueles dias?
TI: Péssimas memórias! Os pingos de chuva atingiam a minha viseira com tanta força que eu não podia acreditar que aquilo era chuva. Pareciam pedras de cascalho batendo na minha viseira. Pra mim era totalmente impossível dirigir um F1 com aquela quantidade de água na pista.

JB: Em 1995 você se mudou para a Arrows. Como era o relacionamento com Jackie Oliver? Ele tem fama de difícil… E o carro? Era muito diferente da Simtek do ano anterior?
TI: Finalmente uma boa pergunta! Para ser honesto, eu gosto do Jackie Oliver como pessoa, mas quando havia dinheiro envolvido o homem se transformava em um verdadeiro monstro. Em relação ao carro, naquele ano o carro da Arrows era muito bom, mas a potência do motor [um Hart 3.0 V8] era uma verdadeira merda!

JB: Quanto você pagou para a Simtek pela vaga em Suzuka? E em 1995, para a Arrows?
TI: O que?! Me desculpe! Eu não fui um piloto pagante, e inclusive recebi salário da equipe! Mas, na verdade, meus patrocinadores pagaram a eles uma grande quantidade de dinheiro (risos).

JB: Você era sabidamente um ‘pay driver’. Sendo assim, como foi incidente em Mônaco (1995), quando um Safety Car destruiu o seu carro? Você teve de arcar com o prejuízo?
TI: Eu não sei do que vocês estão falando. Eu não era um piloto pagante!!! De qualquer forma, os danos desse acidente foram pagos pela organização à equipe, não para mim.

Durante a sessão de treinos livres para o GP de Mônaco de 1995, Taki teve seu carro atingido por um dos Safety Cars quando era guinchado de volta aos boxes depois de deixar o motor apagar. Com o forte impacto, a Arrows FA16 chegou a capotar! Por conta da quebra do frágil santantônio, Inoue teve uma concussão e foi encaminhado para o centro médico do circuito, sendo liberado em seguida. O japonês ainda conseguiu participar da prova, mas abandonou com problemas de câmbio na volta 27.


JB: Eu não poderia deixar de perguntar: fale um pouco sobre o incidente em Hungaroring…
TI: Isso está no Youtube, e o vídeo explica tudo.

GP da Hungria de 1995: nascia ali o “mito”


JB: Você esteve perto de assinar com a Minardi para 1996, mas foi preterido em favor de Giancarlo Fisichella. Foi apenas por dinheiro ou havia mais alguma coisa?
TI: Na verdade eu já havia assinado com a Minardi e rompi o contrato. Sinto muito pelo Sr. Minardi. Um dos meus patrocinadores desistiu de última hora por conta de alguma merda política.

JB: Há algum tempo atrás você voltou ao cockpit de um Fórmula 1, ao testar uma Lotus em Paul Ricard. Quais são as diferenças depois de 20 anos? O que achou do carro?
TI: O carro da Lotus é incrivelmente melhor se comparado com um F1 de 20 anos atrás. Basicamente, o carro faz tudo.

[Em 2014, Taki Inoue deu três voltas com uma Lotus-Renault E20, de 2012, no circuito de Paul Ricard, em evento reservado a jornalistas e convidados]



JB: A propósito, você retornou com ele sem bater, certo?
TI: Claro! Eu sou o ex-piloto de Fórmula 1 Taki Inoue. O que você esperava que eu fizesse?

JB: Você fez alguma amizade durante o tempo em que esteve no grid? Como era o seu relacionamento com outros pilotos japoneses contemporâneos (Ukyo Katayama e Aguri Suzuki)?
TI: Eu não fiz nenhum amigo durante esse tempo. Mesmo os outros pilotos da F1 não sabiam que eu era Taki Inoue, piloto de Fórmula 1. Porque eles não conheciam o meu rosto (risos).

JB: E com seus companheiros de equipe (Gianni Morbidelli e Max Papis)?
TI: Eu gosto muito deles. E eles são pilotos muito profissionais. É por isso que eles ainda estão correndo até hoje - Max Papis atualmente corre na Bush Series, na Nascar, enquanto Gianni Morbidelli participou recentemente dos campeonatos europeu e mundial de carros de turismo.

JB: Qual o momento mais marcante que você presenciou (pela TV ou ao vivo) na Fórmula 1? Aquele que você viu e disse: "putz! Eu vivi para ver isso!"
TI: Normalmente eu não assisto F1 pela TV.

JB: O que acha da Formula 1 atual? Tem algum piloto de que você goste?
TI: Muitos dos pilotos são como eu. Mas há alguns (poucos) pilotos especiais por lá também.

JB: Para você, quem é “o Taki Inoue” da Fórmula 1 atual?
TI: No momento não há nenhum como eu. É por isso que F1 está ficando tão chata ultimamente.

[Para fechar a entrevista com chave de ouro, deixo este vídeo feito por um fã, e que circula no Youtube - ele traz um apanhando de todos os melhores piores momentos da curta passagem de Taki Inoue pela Fórmula 1]ta


Colaboração editorial: Paulo Alexandre Teixeira (Speeder76) e Lucas Carioli
Agradecimento especial: Ludmila Coimbra

Um comentário:

  1. Jaime, a Simtek tinha um belo carro, e por isso gosto de dizer três coisas de como ela foi: Linda, machucadora, assassina...

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