31 de agosto de 2015

A história dos irmãos Rodriguez

A história dos irmãos Pedro e Ricardo Rodriguez é uma das mais tremendas e incríveis. Talentosos e precoces, estes dois mexicanos deixaram seus nomes gravados na história do automobilismo. Mas, assim como a velocidade, a tragédia também foi um ponto em comum, e ambos faleceram nas pistas, cedo demais.



Pedro e Ricardo Rodriguez eram dois dos 5 filhos do casamento entre Pedro Natalio Rodrigues e Conceição "Conchita" de la Vega Gorráez. Apesar de terem nascido em berço de ouro, ambos decidiram trilhar o "caminho natural", começando suas carreiras nas bicicletas e migrando para as motocicletas logo em seguida - seguindo os passos do pai, então um ex-piloto de motos.
Em 1952, aos 12 anos, Pedro, o mais velho, participou da sua primeira corrida pilotando carros: um rali, no qual abandonou. Três anos mais tarde passou a correr regularmente com um Jaguar XK-120 e um Porsche 1600 Super.

Em 1957, Don Pedro decidiu internacionalizar a carreira dos filhos, com a estréia de ambos acontecendo na Nassau Speed Week daquele ano; com Ricardo (com apenas 15 anos!) pilotando um Porsche 550 e Pedro a bordo de uma Ferrari 500TR. Nenhum dos dois conseguiu um resultado expressivo, e Pedro (já conhecido pelo seu arrojo) se envolveu em um grande acidente ainda nas primeiras voltas, terminando em último lugar.

No ano seguinte, Ricardo foi impedido de participar das 24 Horas de Le Mans por conta da pouca idade, e Pedro fez sua estréia em Sarthe dividindo uma Ferrari 500TR com José Behra - então irmão do famoso Jean Behra.

Em 1959, os irmãos desembarcaram de vez na Europa, com Pedro participando dos 1000 Km de Nürburgring a bordo de um Porsche 1600 Super, terminando em 2º na sua classe. Também em 1959, os Pedro e Ricardo finalmente dividiram um carro em Le Mans: um OSCA 750. Porém, abandonaram a prova depois de apenas 32 voltas com um problema na bomba d'água.

Em 1960, na primeira temporada completa de ambos no Mundial de Carros de Turismo, os irmãos dividiram uma Ferrari Dino 196 da equipe North American Racing Team. Depois dos abandonos nas 12 Horas de Sebring (problemas na embreagem) e Nürburgring (motor) e um modesto 7º lugar na Targa Florio, Ricardo conseguiu um 2º lugar nas 24 Horas de Le Mans daquele ano, em dupla com André Pilette, a bordo de uma Ferrari 250TR - na ocasião, tinha apenas 18 anos!



Os resultados apareceram também em 1961. O terceiro lugar nas 12 Horas de Sebring e a boa performance nas 24 Horas de Le Mans (os dois estavam em posição de pódio quando abandonaram, a pouco menos de 2 horas do fim, devido a uma quebra de motor) renderam aos irmãos Rodriguez o convite de Enzo Ferrari para serem pilotos oficiais da Scuderia - inclusive na F1. Curiosamente Pedro declinou o convite, ao contrário do irmão, Ricardo, que acreditava poder ser campeão do Mundo já em 1962!

O cartão de visitas de Ricardo

A estréia de Ricardo na Fórmula 1 aconteceu no Grande Prêmio da Itália de 1961; penúltima etapa da temporada, e que ficaria marcada como o último ano da utilização do traçado original (ainda com as curvas inclinadas) e pela morte do alemão Wolfgang von Trips - que disputava o título com Phil Hill. Ricardo Rodriguez, convidado, surpreendeu ao alinhar uma Ferrari na segunda posição - fato esse que o tornou o piloto mais jovem da história a largar na primeira fila, então com 19 anos e 208 dias. Durante a corrida, ele chegou a brigar pela liderança com Phil Hill e Richie Ginther, até que uma falha na bomba de combustível o tirou da corrida na 13ª volta.

Ricardo Rodriguez em sua estréia na F1, no GP da Itália de 1961


A performance na corrida italiana rendeu a Ricardo um convite para ser um piloto exclusivo da Scuderia no ano seguinte, mas sem correr a temporada completa, devido à sua pouca idade. Porém, quando correu, Ricardo foi espetacular: um 2º no Grand Prix de Pau (extra-campeonato), um 4º lugar na Bélgica e um 6º na Alemanha foram seus melhores resultados em 1962, rendendo ao mexicano 4 pontos e a 13ª posição no campeonato. Além disso, nesse mesmo ano, venceu a Targa Florio a bordo de uma Ferrari Dino 246 SP, em trio com Olivier Gendebien e Willy Mairesse.

A essa altura, pelos resultados obtidos, pela pouca idade e pela velocidade demonstrada, Ricardo já era visto como um futuro campeão mundial de Fórmula 1...



Morte prematura

Quando a Ferrari decidiu não participar de sua corrida "caseira" de Ricardo, o Grande Prêmio do México de 1962 (então uma etapa extra-campeonato que fechava o calendário), ele decidiu alinhar no grid com uma Lotus 24 de Rob Walker. Mas, ainda na primeira seção de treinos, uma falha na suspensão traseira direita do Lotus fez com que Ricardo batesse violentamente na barreira de pneus da temida curva Peraltada, em um terrível acidente que arremessou o corpo do piloto em direção ao guard-rail, praticamente partindo-o ao meio. A violência do impacto, claro, matou Ricardo instantaneamente.

Atrás do Lotus de Rodriguez, estava o Porsche nº 4 do holandês Carol Godin de Beaufort, que em entrevista a um periódico mexicano, contou o que se lembra daquele dia:
"Eu percebia que sempre que Ricardo entrava na Peraltada, ele o fazia em uma velocidade maior do que deveria para uma curva daquelas características - ainda mais a bordo de um Fórmula 1"
Seu irmão Pedro Rodriguez também estava inscrito para participar da prova mexicana, mas, devido à morte prematura de Ricardo, mudou de idéia e pensou inclusive em abandonar a carreira, somente voltando a competir dois meses depois...

O retorno de Pedro

O regresso de Pedro Rodriguez às pistas aconteceu em grande estilo, no início de 1963, com uma vitória nas 3 Horas de Daytona, a bordo de uma Ferrari 250 GTO. No mesmo ano, conquistaria o 3º lugar nas 12 Horas de Sebring, e faria a sua estréia na Fórmula 1, a convite da Lotus, nas duas última etapas da temporada - então os GPs dos Estados Unidos e do México (abandonando nas duas oportunidades).

No ano seguinte, com um Ferrari 156, foi 6º no México e, em 1965 participou de mais três etapas da F1 – terminou em 4º no Daily Express Silverstone Trophy (prova extra-campeonato), com um Lotus 33 e, com uma Ferrari 1512 V12 terminou em 5º e 7º nos Estados e no México, respectivamente. Em 1966, substituiu o lesionado Jim Clark no GP da França, abandonando a prova quando era o 4º colocado, e no GP do seu país do mesmo ano, uma transmissão quebrada lhe roubou um seguro 3º lugar.

Rodriguez ao volante do Cooper T81, que utilizou durante toda temporada de 1967.


Na ocasião do GP da África do Sul de 1967 veio o convite da Cooper para substituir John Surtees, que assinara pela Honda; e, ao volante do pesado (mas poderoso) Cooper T81/Maserati, Pedro Rodríguez ganhou a prova, assinando logo aí um contrato para o resto da temporada. Como piloto oficial da Cooper, foi 5º em Mônaco, 6º na França, 5º na Grã-Bretanha, 8º na Alemanha e 6º no México. Pedro ainda ficaria de fora de três outras provas, depois de ter quebrado as pernas n'um acidente de F2...

A vitória em Le Mans e a contratação pela Ferrari

Apesar do sucesso crescente na F1, o ponto alto da carreira de Pedro Rodriguez foi, sem dúvida, a vitória na edição de 1968 das 24 Horas de Le Mans, a bordo de um Ford GT 40 partilhado com Lucien Bianchi, da equipe liderada por John Wyer. Com o resultado, Pedro conseguiu um contrato oficial com a Ferrari para a disputa de toda a temporada de 1969.



Com a potente [e, dizem, inguiável] 312P Prototype, Rodriguez terminou em 4º lugar os 1000 Km de Brands Hatch (correndo em dupla com Chris Amon) e, mais tarde, em 2º lugar nos 1000 Km de Spa-Francorchamps, antes de participar da etapa de Bridgehampton da Can-Am, onde conquistou o 5º lugar. Ainda em 1969, Rodríguez aceitou um convite da equipe Matra Sports, dividindo um MS650 com Johnny Servoz-Gavin nas 6 Horas de Watkins Glen, terminando em 4º. Também com Servoz-Gavin, abandonou os 1000 Km de Zeltweg e, com Brian Redman, foi 2º nos 1000 Km de Paris, em Monthléry.

Na Fórmula 1, despedido da BRM, correu com um BRM P133 privado antes de ser contratado pela Ferrari para quatros GPs. Com um modelo 312, foi 6º em Itália, e com um carro semelhante (porém, inscrito pela N.A.R.T) participou da temporada norte-americana, abandonando no Canadá e terminando em 5º nos Estados Unidos e em 7º no México.

Porsche 917k: o casamento perfeito

O ano de 1970 viu nascer uma das duplas mais famosas das corridas de sport protótipos: Pedro Rodriguez e o famoso Porsche 917k da equipe de John Wyer (com a lendária pintura da Gulf). O mexicano tinha como companheiro de equipe e principais rivais eram os experientes Jo Siffert e Brian Redman, além de um então desconhecido Leo Kinnunen.



Nesta altura, Rodriguez e Siffert eram considerados os mais bravos pilotos de sport protótipos de todos os tempos, com Rodriguez se destacando em relação ao companheiro devido à sua incrível habilidade sob chuva. A famosa imagem dos dois rivais tocando rodas em direção à curva Eau Rouge, em Spa-Francorchamps, é histórica.

Em dupla com Kinnunen, Pedro Rodriguez venceu 4 das 10 etapas da temporada de 1970 - Daytona, Brands Hatch, Monza e Watkins Glen; enquanto Siffert venceu 3.

Na F1, retornou à BRM - que agora contava com um P153 mais eficaz, associado ao potente V12. Pedro pela primeira vez se viu em condições de brigar no pelotão da frente, mas, o que o P153 tinha de potente tinha também de problemático, e o mexicano sofreu inúmeras quebras durante a temporada. O ponto alto foi a vitória em Spa-Francorchamps (sua pista preferida), depois de um duelo com Chris Amon, da March.

Em 1971, Pedro Rodriguez viu seu principal adversário, Jo Siffert, trocar o Endurance pela F1 (passando a ser seu companheiro de equipe na BRM) e Kinnunen ser substituído por seu amigo de longa data Jackie Oliver.

Além dos sport protótipos e da F1, Pedro Rodriguez fez algumas participações na Nascar. Na foto acima, ele aparece a bordo de um Plymouth Road Runner durante a Daytona 500 de 1971 - prova na qual terminou na 13ª posição.


Sem a rivalidade do suíço nos esporte protótipos, Rodriguez venceu [em sequência] as provas disputadas em Daytona, Monza, Spa-Francorchamps e Osterreichring. Na pista de Zeltweg, com Richard Attowood no lugar de Oliver, fez talvez uma das melhores corridas da sua vida; debaixo de uma chuva torrencial (claro!), correu como um louco, recuperando os seis minutos e as três voltas perdidas nos boxes para trocar a bateria do Porsche 917 K. Um feito que beira o inacreditável! Mas aí vieram as 200 Milhas de Nuremberg...

Uma morte estúpida

As 200 Milhas de Nuremberg, no perigoso traçado urbano de Norisring tiveram lugar no fim de semana entre os GPs da França e da Grã-Bretanha. Era a quarta etapa do campeonato Interseries, para carros de “sport” de Grupo 7 (uma espécie de Can-Am europeia). Inscrito com um BRM P167/Chevrolet 8.0, Pedro chegou à pista na noite de sexta-feira, mas o carro ainda não estava pronto, apresentando diversos problemas de motor, que não lhe permitiram ir além do 7º lugar nos primeiros treinos. Por conta disso a equipe decidiu não participar da prova, deixando Rodriguez como um mero espectador da corrida...

Sabendo disso, e cientes de que a sua participação era garantia de bilheteria, os organizadores propuseram-lhe um lugar n'um dos dois Ferrari 512M de Herbert Muller - então um velho amigo do mexicano, com quem semanas antes tinha partilhado um Porsche 908/03 de fábrica na Targa Florio. O convite foi acompanhado de um cheque de 5.000 dólares, e Rodriguez acabou aceitando o convite.

Pedro Rodriguez a bordo da 512M, no fatídico fim de semana de Norisring.


No sábado, Pedro colocou o carro na primeira fila, com o 2º melhor tempo – um feito, se considerarmos que era a primeira vez dele ao volante do 512M. Na realidade, o 512M era o velho 512S utilizado por Steve McQueen nas filmagens do filme "Le Mans" no ano anterior, que depois fora comprado e convertido em um 512M por Muller – que ainda por cima teve com ele um violento acidente, quase o destruindo por completo, semanas antes, em Zeltweg.

Na corrida, Pedro assumiu a liderança ainda na primeira volta, e a partir daí passou a imprimir um ritmo alucinante, com a única tática que conhecia - acelerar mais e mais! Na 12ª volta, quando estava para dar uma volta no Porsche 910 de Kurt Hild (que seguia cerca de 70 km/h mais lento), na saída da estreita curva "Schlauch", o alemão ignorou as bandeiras azuis e os carros se chocaram...



A Ferrari de Pedro Rodriguez desgarrou para a esquerda e desviou bruscamente para a direita, atingindo o muro com enorme violência; depois, o carro foi atirado contra um pequeno muro, do outro lado da pista, irrompendo em chamas. Imobilizado no interior do cockpit, Rodriguez rapidamente perdeu a consciência (também devido às múltiplas fraturas que sofreu), e apesar dos esforços de três comissários e dos bombeiros, os médicos nada conseguiram fazer pelo mexicano, que acabou por ser declarado morto duas horas mais tarde.

Norisring marcou o fim da saga dos velozes irmãos Rodriguez, e tanto Ricardo como Pedro são tidos, até hoje, como os maiores expoentes do automobilismo mexicano. Pela carreira mais longeva que a do irmão caçula, Pedro é também reconhecido como um dos melhores pilotos de carros esporte que já existiu, mesmo sem a velocidade natural de Ricardo, ele era arrojado... Dono de uma pilotagem selvagem, mesmo (e principalmente) debaixo de chuva. É em homenagem à eles que o principal autódromo do México, que tantas vezes sediou a F1 [e retorna ao calendário da categoria em 2015] chama-se Hermanos Rodriguez.

Um comentário:

  1. Muy buena historia Jaime. Siempre recuerdo a Pedro por el impresionante 917 y el BRM P160 de Yardley que me fascinaba. Con respecto a Ricardo, recuerdo haber leído hace años que John Surtees le consultó en los entrenamientos cómo encarar la peraltada, a lo que el mexicano respondió sin dudar "a fondo". Como el viejo John no le creyó mucho, se fué hasta la curva a verlo pasar. Allí comprobó dos cosas: que Ricardo efectivamente encaró a fondo y que esa curva no se podía hacer de esa manera...

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